Não é arrependimento, não é a droga do arrependimento, é só a análise, a constatação de uma vida de deixa pra lá, não vale a pena. É a constatação de que a lista de desistências só aumenta, são as pessoas que não são como eu sonhei, são os empregos que decepcionam e entediam. E mais uma vez, eu não olhei pra trás, eu não me despedi, eu não me dei esse trabalho. Devia ser proibido te fazerem desistir de um sonho, mas quem paga pela fraqueza e quem perde é quem desiste. O mundo, os outros continuam lindos e felizes, ninguém vai parar pra pensar no porquê eu nem sequer me despedi, ninguém vai sofrer por ter me magoado, ninguém vai lamentar a minha partida por muito tempo, mas não importa, eu não me arrependo, eu só lamento porque sempre tem que acabar assim. Eu só precisava da novidade, a doentia necessidade de novidade, de que tem algo melhor em um lugar perdido no universo, novos ares, a sensação de estar sozinha e não ter nada e precisar começar do zero. Porque quando eu digo que quero paz, o meu íntimo pede guerra, pede luta, suor e tormento pra depois, aí sim, cansado, pedir paz. Por fora estou calma, por dentro turbulência.



* Pequenos textos


Isso não é meu, é a repetição de muitos outros textos lidos e ouvidos, é a repetição da dúvida humana de por que existir se não se pode viver tudo que se deseja na intensidade que se deseja. Devem ser raras as pessoas que nunca pensaram que suas vidas não têm sentido. É que viver é sim, estar numa bolha cheia de milhares de coisas legais e felizes, mas a bolha é transparente e deixa ver o que lá lá fora, as outras bolhas, as outras paisagens e há muito mais que uma vida humana pode provar. A gente espera que o tempo amenize a ansiedade e dissolva alguns sonhos dispensáveis.



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Estava profundamente decepcionada com algumas pessoas, até perceber que era a única culpada, pessoas de verdade não são como os personagens, elas têm vida própria além da imagem que fazemos delas em nossas cabeças, vão nos surpreender, nos decepcionar e seguir suas vidas independentes de qualquer outra pessoa.


Da minha janela eu vejo homens que passam a trabalho, a compras, e passam e não vêem que só passam. Eles não têm culpa, seguem o instinto de existir. Mas também vejo pássaros cantando, homens construindo. Vejo vitórias incríveis, curas sendo encontradas, paixões sendo declaradas, a vontade vencendo o medo.
Aqui dentro só ilusão.




Histórico do romance, teoria sobre o gênero romance

Todo leitor assíduo já passou, ao menos uma vez, pela situação de ter que explicar que não está lendo por obrigação, não, não é para a escola. Não, eu não estudo demais.

O que é romance? Para que serve? (E breve histórico do romance)
weheartit Emi


Ou pior, vou descrever meu drama pessoal, já aconteceu há muito tempo na biblioteca de minha cidade, Timbaúba, e mais recentemente na de São Vicente Férrer, meu ex- local de trabalho. A pessoa que deveria ser a bibliotecária, vir com uma dessas:

" Pra quer ler romances? É tudo mentira, um mundo perfeito que não existe na vida real, todo mundo nos romances é lindo e termina no final feliz, isso é ilusão".

No, não, nonada.Bichinha, deixa eu te contar, o nome disso aí é novela da Globo, não é romance, não.

Já foi assim, não é mais, ou pode ser, o romance, a Literatura é livre pra ser o que quiser.

Dá um desamor entrar em uma biblioteca ou livraria e ser atendido por alguém que não entende nada de livros, nem falo tanto em livraria, a moça está só vendendo, não é obrigada a conhecer tudo, dá até para perdoar quando perguntam que professor teve a maldade de passar esse livro tão grosso. Mas em biblioteca devia ser sagrado ter um profissional qualificado para entender o nosso apego pelos livros. É estranho que uma pessoa passe dez anos trabalhando em uma biblioteca e nunca tenha curiosidade de ler um livro de ficção.

O que é romance? Para que serve? (E breve histórico do romance)
weheartit.com Nina


Pensando nesses (des)amores, recorri a ajuda de Massaud Moisés para brevemente esclarecer para eles o que é e para que serve esse tal de romance, Lolita, As meninas, Dom Casmurro, não é tudo um mundo perfeito não, mas eu amo mesmo assim. Para isso é sempre bom conhecer um pouco do histórico do romance.

Histórico do Romance

Essa história de o romance sempre retratar um mundo perfeito de ilusão era lá no começo com o Romantismo no século XVIII. Eles tinham a intenção de apresentar histórias com o povo, a sociedade da época, só que nessa época os burgueses estavam em ascensão e meio que patrocinavam muitos escritores, então essa classe foi bastante representada nos romances, e para agradá-los os escritores floreavam as histórias.

“Na verdade, o romance romântico estruturava-se em duas camadas: na primeira, oferecia-se uma imagem otimista, cor-de-rosa, formada do encontro entre duas personagens para realizar o desígnio maior segundo os preceitos em voga, o casamento; apresentava-se aos burgueses a imagem do que pretendiam ser, do que sonhavam ser, e não do que eram efetivamente, correspondente à que faziam de si próprios, mercê da inconsciência e parcialidade com que divisavam o mundo e os homens. Na outra camada, entranhava-se uma crítica ao sistema, algumas vezes sutil e implícita, quando não involuntária, outras vezes declarada e violenta” (Móises, 2006, p 160)

Esse foi só o começo, em seguida outros escritores almejavam aproximar-se mais da realidade, isso se chama verosimilhança,  nomes como Stendhal, Balzac, Dickens começaram a transformar a estrutura do romance, a dar-lhe mais variedades de temas e formas de abordagens. Depois vieram os russos, Dostoievski, Tolstoi, com a análise psicológica.O romance mais que nunca ultrapassa os limites de apenas contar uma história divertida, ele começa a fazer as pessoas refletirem mais sobre a vida ,através dos dramas e inquietações dos personagens que são também os seus, os nossos. De Proust em diante veio evoluindo essa tendência de explorar a sondagem psicológica, a memória, alterar os pontos de vista da narração, fazendo o personagem chegar cada vez mais perto do leitor.
Você pode nunca ter lido esses autores, mas se já leu Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, já tem uma noção do que é a sondagem psicológica.

E para entender que o romance realmente desvencilhou-se da obrigação de representar histórias felizes, basta ler qualquer obra do Realismo ou Modernismo em diante.
Óbvio que muitos leitores e autores também gostam do Romantismo e de finais felizes e são livres também para gostar e merecem nosso respeito como toda forma de arte. Afinal, segundo Massaud Moisés:


“Focalizado como entretenimento, o romance constitui acima de tudo, nunca é demais insistir, uma história que se conta”.

Como sempre falo, é sempre bom contar ou ler uma história, pena de quem não conhece esse prazer.

weheartit.com Sunandmit


Para saber tudo timtim por timtim, leia mais sobre teoria e histórico do romance em A criação literária- Prosa, Massaud Moisés.